me diga o motivo de tua angústia
que te direi o não-motivo da minha,
o desmotivo de ser-estar
café com chocolate
abacate com limão
não entendo o porquê de tua luta
mas vá, me diga o motivo de ela existir
que te digo o imotivo de minha abstenção
continue, prossiga
me fale o que não te faz rir
porque quero te dizer
como minha gargalhada
surge, assim,
no meio do nada,
sem motivo
poço de lamentos
solte aí teus chorares
destrave as amarras
jogue na atmosfera
esses tomates secos
esse azedo nó do peito
descarregue essa encomenda
mas faça logo
coragem,
ser sem piedade de si
vamos já com isso
quero rir de tua desgraça
me esbaldar em tua tristeza
que só me alimenta de prazer
desenlace essa amargura
que farei dela minha fortaleza
minha overdose de sossego
quero essa lágrima
saindo rapidinho
esse soluço bem forte
bem expansivo
e me deleito de tanta euforia
e me devoro de êxtase
e ascendo meu caminho
para um nirvana de risos
e de tanto rir
que minha saliva
doce
transborde,
e encontre esse sal vivo
a derreter tu’alma
do púrpuro nada que é
viver

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