- Ah, rapaz, isso aí é tudo máfia. Você acha que isso aí tudo já não está esquematizado entre eles? É tudo máfia, rapaz.
- Não é bem assim. Existe uma forma de se resolver a injustiça no mundo: se deve começar pelas pessoas. Cada um tem que fazer a sua parte. Se cada um fizesse a sua parte, o mundo, com certeza, seria bem melhor.
- Mas olha só o governo por exemplo. Existe um buraco aqui na rua, já tem uns dois meses. É um desperdício. Olha o tanto de água que sai. Liguei pra companhia de água umas três vezes já. Mas cadê que eles vêm? Essa prefeitura é uma porcaria!
- Agora, pega aí aqueles países da Europa. Quero ver se em cidades de lá isso acontece. É só aqui, rapaz, é só aqui que tem essa roubalheira aí, ó. Ninguém liga pra nada.
- Não tenha dúvidas. Olha, sinceramente, acho que tudo isso aí é coisa que já está anunciada, sabe. Se você pega lá nas escritura, já tá tudo lá. Tudo lá. Isso aí é o fim do mundo, rapaz. Deus já disse que teremos falsos profetas disfarçados de profetas verdadeiros e tal. Se você pega e lê, tá tudo lá.
- É tudo obra do Inimigo. Você acredita que meu filho, agora, não sai daquela porcaria daquele vídeo-game? É um tal de futebol, de corrida. O moleque joga de tudo lá. Comer que é bom quando a mãe chama... nada!
- Isso aí é porque não passou pelo o que nós passamos. Queria ver essa molecada de hoje na roça. Dá uma enxada pra eles. Não vão aguentar nem dez minutos debaixo do sol.
- Ê, rapaz, essa molecada de hoje merece é um rei. Quando eu era moleque, meu pai tinha um chico-doce. Às vezes, ele nem precisava bater. Era só olhar pra mim ou pra um dos meus irmãos. A gente já sabia que o coro ia comer só por causa da olhada dele.
- Ah, rapaz. Uma vez meu pai me deu um rei de espada-de-são-jorge, porque me pegou fumando cigarro de palha escondido. Eu devia ter uns onze anos, mais ou menos. Tá pensando o quê? A coisa era dura, rapaz.
- E minha mãe me deixou todo queimado de cigarro, porque me pegou atrás da moita com uma mocinha lá da roça de João de Sá, um compadre do meu pai que tinha uma fazenda, umas terras lá do lado da gente. Era sobrinha de Seu João. Agora, essa molecada de hoje é tudo mole, rapaz. No meu tempo, eu já teria pêgo essas menininhas tudo aqui da rua.
- Olha a neta de Dona Zuca, ali, ó.
- Qual? A de Toninha ou a de Marina?
- A de Toninha, rapaz. Diz que já embuchou de novo. Menina tão novinha, rapaz, já safada desse jeito. Deve ter uns dezenove anos, só. Já está emprenhada do segundo filho.
- Mas, rapaz, você viu a novela ontem? A televisão não tem mais programa que preste não. Pouca vergonha. Baixaria, rapaz. Mulher pelada, mostrando tudo. Umas menininhas novas, rapaz, com os peitos de fora.
- Essas atrizes aí são tudo cacho de diretor, rapaz. Você não acha que esses cara não saem com essas meninas aí e, em troca, colocam elas nas novelas? Mas eu tô dizendo. Claro que saem.
- Sabe o que eu estava dizendo esses dias no Bar do Zelão? Rapaz, você lembra como era na época da ditadura? Não tinha essa pouca vergonha que tem hoje não, rapaz. Era tudo controlado. Sem essas safadezas aí, ó. Tinha era que voltar logo aquele AI-5 lá que o Ademar de Barros – não foi? – baixou lá. Acabar com essa safadeza toda aí.
- Foi nada. Acho que foi o Figueiredo, não foi? É, acho que foi ele sim. Ah, mas naquele tempo era outra história. Não vê esses sem-terra aí, rapaz. Tem é que descer o porrete mesmo. Tudo bandido. Agora, o governo fica lá. Parece que apoia. Vou te dizer, viu.
- Quando eu vim pra cá, isso aqui era tudo mato. Tudo mato, rapaz. Ali, atrás do colégio do Pedrinho, ali passava um corguinho e tinha um campinho, com um gramadinho bom. Ih, rapaz, já joguei tanta bola ali. Minha mãe vinha me chamar pra comer e cadê que eu ia? Tomava cada rei. Mas hoje isso aqui virou uma cidade, né rapaz?
- É verdade. Mal cheguei aqui, já engravidei a Zuleica. Eu tinha dezesseis e ela quinze. O pai dela disse que era pra casar. Homem tem que casar, fazer o quê?
- É, rapaz. Eu casei com dezoito. E Ana já tava grávida também quando casei.
- Hoje esses troço aí, tudo grande. Esses bichos parecem que esticam. Acho que é essa comida de hoje em dia. Não é possível.
- Ô, Zé, você já pagou o IPTU, rapaz?
- Não paguei e não vou pagar. Ficar dando dinheiro pro governo, rapaz. Esse governador aí não merece nem um centavo da gente.
- Eu tenho firma aberta aqui na oficina, mas dou um jeitinho de não pagar tudo que tem de imposto, né. É uma facada, rapaz. Não dá pra dar trela pro governo não.
- Olha, teve uma turma que passou aqui ontem. Fizeram aí um convite pra participar da reunião de um movimento de discussão sobre os buracos nas ruas do bairro, porque a tal companhia de água, acho, não tá dando conta de arrumar tudo não. Vai ser lá na paróquia do Padre Joaquim.
- E você acha que eu tenho cara de participar dessas reuniões aí, rapaz? Isso é tudo gente que tem ligação com vereador, com deputado. Esses movimento aí é tudo a mesma coisa. Você discute, discute e não resolve nada. Que horas vai ser?
- Acho que vai ser às oito e meia.
- Do dia ou da noite?
- Da noite.
- Ah, e eu vou perder a novela pra ir à igreja? Ainda mais desse padre. Safado, rapaz. Esses dias vi ele defendendo essas pessoas dos sem-teto, sem-terra, uma coisa assim. Deve ser daqueles que defende bandido e fica com essa história de direitos humanos pra bandido. Por que é assim, né. Na hora que o trabalhador morre, não vem ninguém dos direitos humanos pra defender. Agora, quando bandido morre...
- Mas tem que morrer mesmo, rapaz. É tudo sangue ruim. Tem que morrer! É, rapaz, acho que você tem razão. Sempre desconfiei desse povo. Vou também não. Isso aí é tudo máfia.
- E se não é, rapaz. Deixa eu ir ver se a dona da pensão já fez o almoço.
- É, eu também vou lá.
- Ah, e aí, você vai comprar aquele celular roubado mesmo?
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
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