quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Uma dose, Seu Judas

- Um dedinho de branquela, Seu Judas, por favor!

Todos os dias era assim. Um rapaz franzino, aparentando ter uns vinte e poucos anos, entrava no bar de Seu Judas e pedia de maneira bastante educada uma dose de cachaça.

Judas Pereira era homem de palavra, cabra macho dos cafundós do Ceará. Nem lembrava mais há quanto tempo já estava em São Paulo:

- Eita, cabra safado, quando você quiser, me avisa que eu mostro a minha peixeira!

A alguns metros do balcão, ainda dentro do bar, Irineu acompanhava a cena com um certo estranhamento. Costumava pensar em voz bem baixa o que lhe parecia daquilo.

- Mas que ousadia. Esse Judas aí não tem o mínimo de respeito com o coitado do freguês!

E assim era todo santo dia. O rapaz vinha de maneira singela, quase que se subordinando ao dono do bar, e pedia sua cachacinha. E Seu Judas, com voz severa que só o diabo, servia o rapaz, mas repetia a mesma frase, com direito a reiteração:

- E você sabe que eu mostro mesmo, hein cabra!?!

E o rapaz dos cambitos finos dava um sorriso sem graça e tornava a abaixar a cabeça, com um olhar oblíquo para o que poderia ser o pé do balcão.

Era sempre o horário que Irineu estava por lá. Assembléia dos homens da vila após o expediente de trabalho. Para ele, apenas vinte minutos para dar alguns goles num guaraná antes de ir para casa tomar conta dos filhos.

Algumas semanas se passaram e Irineu não conseguia entender a petulância do dono do boteco. Como podia um rapaz tão comportado, tão educado, se submeter a tanta ignorância? Um espírito de fúria contamina a alma do observador Irineu em doses homeopáticas.

Eis que me chega o magricela novamente:

- Um pouquinho de cachaça Seu Judas, por favor!

Irineu nem esperou a terceira palavra da habitual resposta de Judas se completar para intervir e questioná-lo sobre sua conduta.

Seu Judas, repentinamente, aparentando não entender o que estava de fato se passando, perguntou o que ele queria com aquelas palavras ofensivas.

- E ainda tem a pachorra de me perguntar um troço desses? Não vê o que faz com esse pobre rapaz toda vez que ele pede uma simples dose de pinga? O senhor não tem vergonha na cara de ficar humilhando os outros não? Tu vai é ver o que merece!

Num gesto inesperado, Irineu, dominado por uma ira sem limites, pulou para dentro do balcão, pegou a peixeira que tanto era ostentada por Seu Judas e mandou-lhe, sem chances de defesa, duas facadas em sua barriga. Em alguns segundos, o dono do bar não tinha mais pulso.

Ainda atordoado pela adrenalina do feito, Irineu aproximou-se do rapaz magro das cachaças, olhando o corpo de Judas. Uma voz embargada, atrás, parecia não acreditar no que via:

- Meu Deus, que vida é essa?

- Que vida é essa? Isso é a justiça meu rapaz. Você não via o que ele fazia contigo? Ameaçava te matar sempre que vinha aqui, dizendo que mostraria essa peixeira sempre que você quisesse.

Num gesto cinematográfico, o rapaz deixa escapar de seus olhos uma lágrima, agacha-se ao lado do homem ensangüentado no chão, e murmura:

- Era sempre a brincadeira que padrinho fazia comigo se eu quisesse beber a minha cachacinha com limão.

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