- Um dedinho de branquela, Seu Judas, por favor!
Todos os dias era assim. Um rapaz franzino, aparentando ter uns vinte e poucos anos, entrava no bar de Seu Judas e pedia de maneira bastante educada uma dose de cachaça.
Judas Pereira era homem de palavra, cabra macho dos cafundós do Ceará. Nem lembrava mais há quanto tempo já estava
- Eita, cabra safado, quando você quiser, me avisa que eu mostro a minha peixeira!
A alguns metros do balcão, ainda dentro do bar, Irineu acompanhava a cena com um certo estranhamento. Costumava pensar em voz bem baixa o que lhe parecia daquilo.
- Mas que ousadia. Esse Judas aí não tem o mínimo de respeito com o coitado do freguês!
E assim era todo santo dia. O rapaz vinha de maneira singela, quase que se subordinando ao dono do bar, e pedia sua cachacinha. E Seu Judas, com voz severa que só o diabo, servia o rapaz, mas repetia a mesma frase, com direito a reiteração:
- E você sabe que eu mostro mesmo, hein cabra!?!
E o rapaz dos cambitos finos dava um sorriso sem graça e tornava a abaixar a cabeça, com um olhar oblíquo para o que poderia ser o pé do balcão.
Era sempre o horário que Irineu estava por lá. Assembléia dos homens da vila após o expediente de trabalho. Para ele, apenas vinte minutos para dar alguns goles num guaraná antes de ir para casa tomar conta dos filhos.
Algumas semanas se passaram e Irineu não conseguia entender a petulância do dono do boteco. Como podia um rapaz tão comportado, tão educado, se submeter a tanta ignorância? Um espírito de fúria contamina a alma do observador Irineu em doses homeopáticas.
Eis que me chega o magricela novamente:
- Um pouquinho de cachaça Seu Judas, por favor!
Irineu nem esperou a terceira palavra da habitual resposta de Judas se completar para intervir e questioná-lo sobre sua conduta.
Seu Judas, repentinamente, aparentando não entender o que estava de fato se passando, perguntou o que ele queria com aquelas palavras ofensivas.
- E ainda tem a pachorra de me perguntar um troço desses? Não vê o que faz com esse pobre rapaz toda vez que ele pede uma simples dose de pinga? O senhor não tem vergonha na cara de ficar humilhando os outros não? Tu vai é ver o que merece!
Num gesto inesperado, Irineu, dominado por uma ira sem limites, pulou para dentro do balcão, pegou a peixeira que tanto era ostentada por Seu Judas e mandou-lhe, sem chances de defesa, duas facadas em sua barriga. Em alguns segundos, o dono do bar não tinha mais pulso.
Ainda atordoado pela adrenalina do feito, Irineu aproximou-se do rapaz magro das cachaças, olhando o corpo de Judas. Uma voz embargada, atrás, parecia não acreditar no que via:
- Meu Deus, que vida é essa?
- Que vida é essa? Isso é a justiça meu rapaz. Você não via o que ele fazia contigo? Ameaçava te matar sempre que vinha aqui, dizendo que mostraria essa peixeira sempre que você quisesse.
Num gesto cinematográfico, o rapaz deixa escapar de seus olhos uma lágrima, agacha-se ao lado do homem ensangüentado no chão, e murmura:
- Era sempre a brincadeira que padrinho fazia comigo se eu quisesse beber a minha cachacinha com limão.

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