quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Mão dupla

Cadê a porcaria da chave? Ah, tá aqui.
Ah, mas... deixa pra lá. Depois carrego essa droga desse celular. Não pára de apitar essa merda. Chegando lá eu carrego. Isso se a Rosa deixar usar a tomada dela, né? Porque a tomada é dela, não é da firma. Estou ficando mole mesmo!
Tranquei porta. Portão. Preciso tirar essa papelada dessa carteira. Tudo lixo isso aqui. Faço isso assim que chegar lá.
Padaria aberta. E essa cara de sono desse moleque? Parece um filhote de cruz-credo.
Por, que, o, Bigode, foi, perder, três gols no jogo de ontem? Três gols. Diz pra mim, vai. Três gols. Na cara do gol. Só ele e o gol. Mas não entendo essa visão desses caras do time de achar que tenho que tirar o Bigode. É um bom centroavante. E quer saber? Ainda consegue fazer mais gols que o Roberval. Só me arrumam abacaxi, só me arrumam abacaxi. Na hora que ganha, fica todo mundo lá pagando cerveja. Agora que não somos mais líderes... eu vou falar isso na cara do Tonho. Deixa ele pra ver.
E esse café quente? Não tem um café mais frio aí não, meu filho? Zé roela. Como é que meu pai falava mesmo? Oreia seca. Nossa, meu pai. Preciso ligar pro meu pai. Chegando lá eu ligo. Acho que dá tempo sim. É, dá sim. Olha minha língua! Isso fica assim uns dois dias. Mais o dente do siso. Desgraça! Pendura aí, pé enchado. Preciso ir.
Essa calçada. Ficou de ser arrumada semana retrasada. Pedreiro picareta esse do Seu Joaquim, viu. Ô raça, ô raça. Acho que prefiro ter um filho viado do que ter um filho pedreiro.
Nossa, o que que é isso, gente? Essa filha do Bigode está ficando... o que que é isso? Olha o tamanho. Se o pai fizesse gol do mesmo jeito que a filha é bonita, estava tudo tranquilo. Na madrugada vitrola rolando um blues, trocando de biquini sem parar. Sinto por dentro uma coisa bem branda, uma luz. A energia quem manda de todo prazer. Faz tempo que não compro uns CDs. Na verdade agora o lance é Internet, MB3, P3. Sei lá que rosca é essa aí. Vou comprar um computador. Vou ver os preços lá assim que chegar. Vou falar com o molengão do estagiário pra ver pra mim na Internet. Preciso aprender a mexer nesse negócio aí, meu. Cara relaxado. Você é relaxado hein, moleque? Trinta e nove anos nas costas. Ai. Não paguei a conta pra minha mãe. Não paguei? Paguei? Paguei. Ontem. Na hora do almoço. Uma coisa a menos pra dona véia falar. Essa dona véia é uma figura. Encrenca tanto com a Sônia. Dez anos a mais que eu só. Também não é pra tanto. Tá enxuta ainda. Corão. Não vou casar com ela. Mas ela é legal. Gosto dela. Essa dona véia é uma figura.
Que ma, ra, vi, lha. Chuva. Claro, chuva. Por que não chover, não é mesmo? Isso. Vai. Se molha logo. Isso. Esquece o guarda-chuva em casa. Esquece. Preciso é comprar um guarda-chuva. Não tenho guarda-chuva. Se minha mãe souber disso... e meu tênis que não lavei? Nossa, meu tênis.
Ponto cheio. Aquele cara de ontem aí de novo. No mínimo deve estar pensando: olha aí o ameba! Insisto em deixar o Bigode no time. Meu, o Roberval. Deve ter caso com todos esses putos aí. Só pode. Só busão lotado, só busão lotado. Só busão lotado. Seis horas. Seis horas? Era pra eu estar aqui dez minutos antes. Atrasado de novo. Tu é relaxado mesmo, hein moleque?
Não quero conversar com essa mulher. Cara de Dercy Gonçalves. Olha pra isso. Fica me olhando como se me conhecesse. Ih, olha lá. Lá vem. Tô dizendo. Vai falar comigo. Olha lá.
Não!!!
Não, não, não, não. Eu, não, acredito, que, esqueci, a, minha, carteira, em, cima, da, mesa! Não tenho um puto de centavo no bolso. Dez minutos atrasado. A Dercy vem falar comigo. O cara de ontem que sai com o Roberval me olhando. A Dercy não morre. Véia fedorenta. O Bigode me perde três. Três gols. Três gols. Três reais pelo menos. Três reais. Se tivesse três reais já dava um adianto, hein. É, isso aí, três reais. Vale mais que trinta gols do Bigode. Sessenta gols do Bigode. Vale mais do que essa Dercy fofoqueira querendo puxar assunto. Vale mais...
- Ô, minha senhora, bom dia! Tudo bem? A senhora não teria, por gentileza, três reais pra me emprestar? Esqueci minha carteira em casa. Vim apressado pra cá. Sabe como é né...

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