Sempre jogo o papel da bala no lixo.
Fico angustiado.
Papel é papel.
Bala é bala.
Bala é doce.
Bala se come.
Papel não se come.
Mas guarda, da bala, o nome.
Bala sem papel é só bala.
Mas bala com papel, fala.
Bala sem papel é bala.
Mas é anônima.
É doce, é dura, é mole.
Sem nome, sem nome.
Sem papel, nome não tem.
E por que o papel vai pro lixo?
O que se faz com o que não se come, mas tem nome?
E por que eu jogo o nome da bala no lixo?
Por que não guardo o papel e jogo a bala?
Anônima, ela se derrete.
É chupada, dissolvida.
No final, sempre mordida.
Afinal, sempre engolida.
Mas não tem nome.
O nome foi pro lixo.
A questão vai, porém, ao nome que se tem.
Quando se fala do papel, a questão vai mais além.
O nome da bala.
O nome da bala é o nome da bala.
E ela no papel está.
O nome que está no papel não é do papel.
O papel tem nome, mas não é dele.
O nome que está no papel é da bala.
E qual é o nome do papel?
E no mundo, então, qual o seu papel?
O papel não tem nome.
Ele é o nome.
Nome da bala.
Não tem nome, o papel.
Papel é papel.
E papel vai pro lixo.
Porque eu o jogo no lixo.
Nem pro lixo vai.
Vai pro chão.
O nome da bala entope os canos.
Entope as valas.
Entope os bueiros.
Entope o que a bala não entupiria.
Não entupiria porque se acabaria antes de entupir.
Morreria indigente.
Papel quando entope, é papel.
Achado.
Com nome.
Sem nome.
Bala quando se engole, é bala.
Perdida.
Nome achado.
Sem vida.
sábado, 5 de julho de 2008
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3 comentários:
Me encanta essas peculiaridades que certam pessoas têm para perceberem as coisas triviais da vida, do quotidiano, e darem a isso um sentido belo... É a beleza que agrada o mundo. Teus versos são tão agradáveis...
Bons voôs menino passarinho!
Pomba
eu acabo de fazer uma visita virtual!
beijos 1000 pra vc!
Genial, trivial ! Tudo sabe e gosta de jogar com as palavras, como dizem por aqui "ficou bala" !
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